Menos gente e mais escravo: a precarização do trabalhador nas novas relações de trabalho do século XXI
Vivemos
hoje o momento político mais conturbado dos últimos tempos. Se você
não for um idoso que tenha presenciado a ditadura militar,
certamente você não passou por um momento assim em toda a sua vida.
Distinções ideológicas separam nosso país ao meio e cada um dos
lados tem sua parcela de razão e de erro, e achar propostas que
alinhem esses dois lados se torna algo cada vez mais difícil (e cada
vez mais necessário).
De
um lado, pessoas que lutam pela defesa do trabalhador e o colocam
acima de qualquer coisa. Do outro, pessoas que entendem que essa
conta precisa ser paga. Empregados que acham que trabalham muito e
ganham pouco brigando com seus patrões, que lutam para se manterem
competitivos num mercado tão acirrado. Uma causa nobre e uma
necessária, e ambas precisam começar a se entender.
Fato
é que a melhor solução seria acharmos um ponto médio, um meio
termo ideal entre os pólos, que não favorecesse a malemolência ao
dar para uns o que outros precisam trabalhar para ter; e nem
favorecesse a exploração alheia, ao permitir situações às quais
jamais deveria ter que passar um trabalhador. Uma luta que,
infelizmente, ainda parece longe de um fim.
“Terceirizei
o serviço de segurança e de limpeza lá do supermercado e estou
achando ótimo”, disse um empresário que preferiu não se
identificar em uma conversa particular. “Bom que você contrata a
empresa e não precisa se preocupar com mais nada: a própria empresa
cuida de tudo. Todo dia na hora do almoço eles mandam outro
segurança lá para a loja para o nosso colaborador poder almoçar e
nas férias é a mesma coisa, ou seja, a empresa coloca outro
segurança lá no lugar do nosso e eu não tenho mais problema com
isso. As meninas da faxina são a mesma coisa, ficam duas lá no
supermercado todo dia e, quando uma delas precisa tirar férias, a
empresa arruma outra e eu sempre fico com o meu supermercado limpo.
Estou achando ótimo”, disse ele.
De
fato, dá para entender o pensamento do comerciante, que busca
soluções mais simples e baratas para seus problemas empresariais,
mas pensemos: será que tem como a melhor solução ser mesmo a mais
simples e a mais barata? Tem como o mais barato ser mesmo o melhor?
Sabemos que normalmente não é bem assim que funciona.
O
que as muitas tarefas do dia a dia – e também a satisfação com a
diminuição dos custos operacionais de sua empresa – não permitem
que o empreendedor perceba é que são aquelas pessoas que prestam
serviço em seu estabelecimento que estão pagando a conta da redução
de suas despesas, já que não tem mais de onde sair essa diferença
monetária. É como dizem: a corda só estoura do lado mais fraco.
Priscila
S. é funcionária de uma empresa terceirizada de limpeza e presta
seus serviços em um banco da grande Vitória. Ela nos conta a sua
história: “Eu trabalhava no financeiro de uma empresa antes de
mexer com limpeza, mas fui demitida. Eu já fiz um monte de curso,
tenho curso de educação infantil, de técnico de segurança do
trabalho, de administração, de logística, mas eu fui demitida e
fiquei um tempão desempregada. Há um ano e pouco atrás eu fui
chamada para essa entrevista de emprego e eu acabei aceitando. Nunca
pensei em trabalhar com limpeza, mas eu já estava há muito tempo
desempregada e eu tenho dois filhos para criar. Recebo bem menos do
que eu ganhava antes e não tenho mais direito aos benefícios que eu
tinha lá no meu outro emprego, mas fazer o que, né? Foi o que eu
achei”.
O
depoimento da funcionária nos mostra uma triste realidade que se
torna cada vez mais comum em nosso país, e dele, vários
questionamentos podem ser apontados. Primeiramente, a questão do
desemprego, que não é só uma consequência de um crescimento
econômico desordenado, mas também, uma ferramenta de opressão do
capitalismo, onde pessoas acabam sendo submetidas ao desespero de, às
vezes, não terem mais nem o que comer, passando a conviver com a
miséria e a penúria. É que, depois que chegam nesse nível, as
pessoas se tornam mais fáceis de dominar, pois já terão se
esquecido de seus direitos e, movidas pela necessidade humana de se
alimentar, certamente abrirão mão de qualquer regalia, passando a
aceitar todo trabalho e qualquer salário que lhes for oferecido. E
ainda há quem diga: “bote a mão para o céu porque achou
emprego”.
Nesse
modelo, pessoas passam toda uma vida sem acesso à saúde, à
cultura, ao lazer e à educação, enquanto outros só conhecem a
riqueza e a abonança e vivem como reis (ou como senhores de
engenho), ficando com o lucro de tudo aquilo que o outro produziu.
HISTÓRIA
Pode
parecer que foi num passado muito distante, mas só faz
131 anos
que nós abolimos a escravidão no Brasil. O primeiro passo foi dado
em 1850, com a lei Eusébio de Queiroz, que passou a considerar crime
trazer escravos africanos para o Brasil. Vinte e um anos depois a Lei
do Ventre Livre (1871) deu alforria aos que nascessem de pais
escravos e, mesmo 14 anos depois, a Lei do Sexagenário (1885) ainda
teria como título “a regulação da extinção gradual do elemento
servil”. Notem que nem era de gente que eles estavam falando.
“Elemento servil” foi o termo utilizado na Lei 3.270 de 1885.
Mesmo tanto tempo depois, ainda faltariam 3 anos para que a Lei
Áurea, em 1888, finalmente passasse a considerar livre todo aquele
que vivia sob o regime de escravidão e pusesse fim a esse modelo
social e econômico absurdo e bárbaro que, para nossa vergonha,
vigorou no mundo ao longo de toda nossa história.
Mas
com tão pouco tempo passado desde então, não é de se estranhar
que ainda hoje tenhamos resquícios das nossas épocas de escravidão
como o jeito mal educado de tratar o atendente da loja, achando que
ser cliente de um estabelecimento dá direito de tratar seus
funcionários com ignorância e desprezo; A falta de paciência com a
operadora do telemarketing ou da central telefônica, que só fazem o
seu trabalho, mas que recebem toda a ira de seus clientes
insatisfeitos; a exigência da postura de subserviência daqueles que
nos prestam serviço, relembrando nosso passado sombrio onde um
trabalhador se considerava superior ao outro, além da forma
insultuosa, estúpida e autoritária com que muitos patrões tratam
seus empregados, esquecendo-se que o respeito e a igualdade são
condições básicas e inerentes a toda relação humana.
Infelizmente, parece que nossas raízes históricas ainda não
ficaram tão para trás assim.
Essas
posturas demonstram que, mesmo hoje, muitos ainda não abandonaram
esse mau jeito de não se importar em fazer mal ao seu igual.
Ideologias que fazem com que achemos normal que pessoas trabalhem uma
vida inteira em troca de salários que não garantem nem suas
necessidades básicas, quanto mais que lhes permitam qualquer tipo de
conforto. Direitos que estão garantidos no Art. 5º de nossa
Constituição e em qualquer outra carta que verse sobre direitos
humanos no mundo, mas que, se continuarmos permitindo todo esse
liberalismo econômico que oprime e escraviza, certamente num futuro
próximo não passarão de palavras escritas em uma folha de papel.
A
abolição da escravidão nos tirou de uma época de trevas, mas não
resolveu nossos problemas sociais. Foi durante o Governo Vargas (1930
– 1945) que conseguimos dar um importante passo rumo à evolução,
com a criação dos direitos trabalhistas. A partir de então,
passamos a pesar o caráter humano do trabalhador e percebemos a sua
hipossuficiência em relação a seus patrões: normalmente os
trabalhadores possuem menor grau de instrução, detém menos
recursos financeiros e recebem menos oportunidades na vida acabando
sendo forçados, muitas vezes, a aceitar trabalhos que não os
garantem mais que o que comer, assim como fazíamos na época da
escravidão.
Entendendo
que normas precisariam ser criadas para garantir que as pessoas
pudessem aliar suas necessidades pessoais e profissionais – e
também para afastá-las da ganância e da exploração daqueles que
não pensam nos outros e só visam o seu próprio enriquecimento –,
criou-se, em 1943, a CLT, que marca o compromisso do povo brasileiro
com a justiça e a igualdade entre as pessoas, garantindo aos
trabalhadores direitos mínimos para que não tenham que abrir mão
de suas necessidades básicas para sobreviver, numa tentativa de
equilibrar uma relação tão desigual.
Muitas
foram as lutas – e também as mortes – necessárias para que,
hoje, ainda tenhamos esses direitos “garantidos” no Brasil, mas a
modernidade vem globalizando o mundo e fazendo com que, aos poucos,
nós voltemos a perder tudo aquilo que foi tão difícil de
conseguir.
A
simples questão é que a terceirização do trabalho é um forte
exemplo desse modelo capitalista dominador e exploratório. O
outsourcing, como é chamado no exterior, vem ganhando cada vez mais
espaço nos mercados mundial e brasileiro. É definida no dicionário
como a “forma
de organização estrutural que permite a uma empresa transferir a
outras
suas
atividades-meio (Desatualizado. Leia-se: atividades), proporcionando
maior disponibilidade de recursos para sua atividade-fim, reduzindo a
estrutura operacional, diminuindo os custos, economizando recursos e
desburocratizando a administração”.
Atualizando
a informação, antigamente, apenas as chamadas atividades-meio
podiam ser terceirizadas, ou seja, apenas aquelas que não se
relacionavam à atividade principal da empresa. Porém, a lei 13.429de 2017 ,
autorizou que também as atividades-fim fossem terceirizados e agora
todo e qualquer serviço pode ser terceirizado em uma empresa, e só
quem perde com isso é o trabalhador.
Isso
porque, como a própria definição acima nos mostra, todas as
vantagens da terceirização só beneficiam um dos lados da relação,
e adivinhe qual é? Quem é que se beneficia com a maior
disponibilidade de recursos, a redução da estrutura operacional
(que inclusive gera o desemprego), a diminuição dos custos e a
economia dos recursos? Será que alguma dessas vantagens beneficiam o
trabalhador? Eu mesmo respondo que não. Elas só beneficiam os
empresários.
Há,
é claro, quem argumente diferente: “(...) a terceirização é
benéfica para a sociedade. Desde a Revolução Industrial, o
trabalho foi reorganizado de várias formas a permitir a
especialização das atividades produtivas; consequente, a humanidade
avançou como nunca observado antes. Durante este processo, firmas e
organizações econômicas passaram a terceirizar suas atividades a
outras empresas ou a outros indivíduos, possibilitando uma melhor
divisão do trabalho, reduzindo custos de transação, e aumentando a
produtividade” disse Luan
Sperandio.
Não
é difícil perceber que todas essas afirmações são apenas formas
poéticas de se tentar esconder que, com isso, as empresas passam a
ganhar mais e o trabalhador passa a ganhar menos, já que, mais uma
vez, as “reduções dos custos de transação” e o “aumento de
produtividade” só beneficiam um lado da relação. Inclusive, quem
você acha que pagou o preço dessa “redução de custos”? De
onde saiu essa diferença monetária? E eu explico: saiu do bolso do
trabalhador, que teve seu salário reduzido e seus benefícios
cortados para que o negócio do empresário não encontrasse mais
barreiras para crescer.
Os
conceitos acima não trazem argumentos a favor do trabalhador porque
eles, bem provavelmente, não existam. Todos os argumentos
apresentados só são positivos para os empresários que, mais uma
vez, se beneficiam do infortúnio do outro.
A
advogada e escritora Cíntia Renata Amaral fala mais sobre o assunto, “fato
é que a terceirização como atividade meio já deveria ser extinta,
pois só traz prejuízos aos empregados e incentiva a exploração,
acompanhada da falta de responsabilidade de quem efetivamente
explora, ou seja, a tomadora. Estendê-la a todas as áreas, como
visa o projeto, significa dizer que o trabalhador enquanto
trabalhador não passa de número, e deve ser cada vez mais
explorado, trabalhar em condições precárias e com baixos
salários”, disse a escritora.
Existe
também um estudo realizado pela DIEESE que, explicitamente, mostra
que os trabalhadores terceirizados são prejudicados de todas as
formas possíveis. A pesquisa confirma que “(...) no
Brasil, em média, um trabalhador terceirizado recebe um salário 24%
menor do que um não terceirizado. Em alguns casos, como nos
bancos, segundo
o sindicato dos bancários de São Paulo, os terceirizados
recebem em média um terço (33%) a menos do que os contratados, não
tendo participação nos lucros, auxílio-creche e jornada de
trabalho de seis horas”.
O
estudo mostra também que os terceirizados se acidentam mais, uma vez
que essas empresas não investem na qualificação e no treinamento
adequado de quem lhes presta o serviço, fazendo com que muitos,
inclusive, percam suas vidas em função dos riscos aos quais são
expostos.
O
pensador e escritor Guilherme K vai dizer que “outra
faceta terrível da terceirização são os dados referentes aos
acidentes de trabalho e mortes. Alguns números de algumas empresas
escancaram a realidade na qual terceirizados sofrem mais acidentes e
morrem mais durante o trabalho do que contratados. Na Petrobrás,
entre 2005 e 2012 houve um aumento de 2,3 vezes no número de
terceirizados, ao passo em que o número de mortes durante atividades
laborais foi amplamente maior entre terceirizados do que efetivos: 14
contratados morreram e 85 terceirizados morreram. Ao terceirizar, as
empresas transferem a responsabilidade da segurança para a outra
empresa, muitas vezes, inclusive, quarteirizando essa função”,
afirma K.
O
levantamento também mostrou que os terceirizados cumprem uma jornada
de trabalho maior, além de permanecerem menos tempo em seus
empregos, o que aumenta a incerteza e a instabilidade econômica
dessas pessoas que não podem adquirir qualquer tipo de compromisso
financeiro a longo prazo,
como comparar sua casa, por exemplo, por não saberem se eles ainda
estarão empregados até o final do ano. Algo que quem está de longe
não percebe, mas que muda absolutamente a vida de quem vive essa
realidade. Mas esse ainda não é o pior dos problemas.
Vinícios
V. é funcionário de uma empresa terceirizada de vigilância e
presta seus serviços em uma agência bancária na capital do
Espírito Santo. Ele nos relata uma triste realidade que acontece com
muitos, mas que muita gente não sabe que acontece. “Trabalho há 5
anos como segurança e de uns tempos para cá eu comecei a sentir uma
dor muito grande na perna. Depois de já não estar mais aguentando
fui no médico e descobri que era uma inflamação no nervo ciático.
Eu não gosto de dar atestado porque lá na empresa eles descontam
esses dias das nossas férias e do ticket alimentação. Porém, meu
supervisor disse que era para eu dar meu jeito porque a agência não
poderia ficar sem segurança”, conta Vinícios.
No
outro dia, mesmo sentindo muitas dores, mas com medo de perder o
emprego, o segurança que nos relata essa história conta que foi
trabalhar, mesmo tendo um atestado que declarasse a sua incapacidade.
Ele nos conta que, ao chegar à agência, quase sem conseguir andar,
contou a história para os funcionários do banco, que não puderam
fazer muito mais que se compadecer pela situação. “Só vocês que
são concursados que tem direito de passar mal. Nós que somos
terceirizados não temos direito disso”, disse Vinícios.
Essa
triste e inaceitável história mostra exatamente ao que ficam
submetidos aqueles que são obrigados a trabalhar nesse tipo de
regime. Acabam sendo forçados a abrir mão de seus direitos por
serem pessoas honestas e terem escolhido o caminho do trabalho em
detrimento do caminho do crime, e simplesmente não é justo que essa
decisão lhes cobre um preço tão alto assim.
Notem
que o desabafo do segurança demonstra com clareza a questão da
perda da condição humana a qual o trabalhador fica exposto, sendo
submetido a exigências que não condizem com as características
naturais do nosso ser. Enquanto seres humanos, é natural que
acabemos, eventualmente, passando mal. Acontece com todos nós.
Então, como aceitar um modelo trabalhista que pune seres humanos que
passam por essas situações? O que acontecerá no futuro se
começarmos a concordar com um modelo assim?
Desse
raciocínio podemos concluir: não é essa a perda gradual da
condição humana que existem em todos nós? Aceitar esse modelo não
seria negar o trabalhador em detrimento do enriquecimento
desproporcional de alguns? Porque não é o processo evolutivo
natural que cobra esse preço, mas sim a ganância, que consome tudo
e a todos e não para até que já não haja mais nada para
conquistar. Um regime trabalhista que não difere muito da época em
que o trabalhador vivia acorrentado a grilhões e era forçado a
trabalhar independentemente de sua condição, situação, aptidão
ou vontade. A única diferença é que hoje nós só mudamos a
corrente, mas a prisão continua a mesma.
Essa
realidade precisa ser revista e as pessoas precisam começar a tomar
ciência do que vem, gradativamente, acontecendo mundo afora.
Precisamos nos mobilizar contra essa modernização que volta a nos
tratar como mera mão de obra e nega toda a essência do nosso ser.
Nega direitos que são essenciais ao trabalhador e nos acorrenta a um
regime trabalhista que troca vidas por dinheiro.
O
certo é que todo o processo evolutivo pelo qual passamos ao longo
dos séculos, todas as tecnologias que desenvolvemos e todo o
conhecimento que adquirimos não foram capazes de fazer com que
desenvolvêssemos um modelo de organização social que pudesse pôr
fim a esta briga. Permanecemos baseando nossos pensamentos em ideais
antagônicos como direita e esquerda, empregado e empregador, pobres
e ricos, héteros e homossexuais, negros e brancos, homens e
mulheres. Ideais que, por serem opostos, não possuem lugar comum,
não comungam de forma alguma e, por isso, não se entendem,
incitando mais a briga que a solução.
A
luta pelos direitos do trabalhador se torna algo cada vez mais
necessário no mundo globalizado, onde os maus exemplos dos países
estrangeiros não podem servir de base para nossas decisões no
Brasil. Nem pobre nem rico, nem preto nem branco, nem direita ou
esquerda e nem homem ou mulher, mas precisamos nos unir em busca de
um mesmo ideal para que, juntos, possamos construir um futuro melhor
para todos. Porque só teremos um mundo mais igual quando passarmos a
nos importar menos com as nossas diferenças.
Escrito
por Leandro Magnago
Menos gente e mais escravo: a precarização do trabalhador nas novas relações de trabalho do século XXI
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