por Pamêlla Mayra
Embora
não seja possível comprovar que vivemos na época mais ansiosa da
história humana, a sensação é que cada dia, ouvimos mais pessoas
sendo diagnosticadas com Ansiedade por psicólogos e psicanalistas.
Sou
ansiosa crônica desde a infância. Me recordo de chorar inúmeras
vezes por mortes que sequer aconteceram, medo de não ter uma
profissão, medo de perder a memória. A lista é enorme. Embora
sejam medos normais, a diferença é que quem é ansioso sente isso o
tempo todo. Qualquer mudança na rotina pode significar um sinal de
que as coisas estão – de alguma maneira – dando errado ou estão
fora de controle. Hoje, sabemos porquê isso acontece. Ansiosos têm
reações desmesuradas porque sua amígdala (órgão na base do
cérebro) é mais ativa que o normal. E, adivinhem, ela é
responsável por processar, entre outras coisas, o medo.
Ter
ansiedade é normal, trata-se de um estado emocional até necessário.
Pesquisadores acreditam que ela ajudou o ser humano a evoluir, porque
nos manteve seguros de ameaças com animais e situações perigosas.
O problema é quando ela fica fora do controle e a pessoa se sente
ameaçada mesmo quando não há nenhum perigo por perto.
A
ansiedade passou a aparecer com frequência nos diagnósticos
psíquicos a partir dos anos 1950, conta o jornalista americano Scott
Stossel em seu livro Meus tempos de ansiedade.
A
ansiedade voltou a aparecer com força durante o século XIX. Não
por acaso, foi nessa época que começou a surgir o que conhecemos
hoje como psiquiatria moderna. Os termos usados por Sigmund Freud são
a base – até hoje – para muitos das palavras usadas para
diagnosticar as desordens de hoje. Na primeira edição do ManualDiagnóstico e Estatístico (conhecido como DSM), publicada em 1952,
apresenta a ansiedade como sinal de condições psiconeuróticas. Ao
longo dos anos, as novas edições do DSM entraram em mais detalhes a
respeito dessa condição. Surgiram os diagnósticos de síndrome do
pânico, transtorno de ansiedade generalizada e síndrome de estresse
pós-traumático.
O
que isso tudo quer dizer? Por que temos a sensação de que todo
mundo está ansioso? É difícil dizer. Hoje, temos mais informação
a respeito de como desordens mentais afetam nosso corpo. Ao mesmo
tempo, vivemos numa sociedade conectada, na qual a evolução da
tecnologia tem mudado diversos aspectos da vida (social, trabalho,
comunicação, economia, só para listar alguns) em grande
velocidade.
A
ansiedade provavelmente existe desde que o ser humano surgiu. Mas
talvez estejamos criando um mundo no qual essa característica seja
hiperativada, assim como afirma a filosofia de Bauman com sua
“sociedade líquida”.
Alguns
acontecimentos da segunda metade do século XX, como a instabilidade
econômica mundial, o surgimento de novas tecnologias e a
globalização, contribuíram para a perda da ideia de controle sobre
os processos do mundo, trazendo incertezas quanto a nossa capacidade
de nos adequar aos novos padrões sociais, que se liquefazem e mudam
constantemente.
Nessa
passagem do mundo sólido ao líquido, Bauman chama atenção para a
liquefação das formas sociais: o trabalho, a família, o
engajamento político, o amor, a amizade e, por fim, a própria
identidade. Essa situação produz angústia, ansiedade constante e o
medo líquido: temor do desemprego, da violência, do terrorismo, de
ficar para trás, de não se encaixar nesse novo mundo, que muda num
ritmo hiperveloz deixando milhões de pessoas doentes.
Basta olhar para o seu celular, para a competição que as redes sociais produzem constantemente, as comparações descabidas, os relacionamentos que são cada vez mais líquidos e menosprezados enquanto o consumo de álcool e substâncias ilícitas aumentam gradativamente.
Para
ser sincera, me assusta saber que o mundo tecnológico é justamente
um dos fatores que fazem pessoas como eu viverem permanentemente
tensas, preocupadas, angustiadas. Os laços de identificação entre
as pessoas, que trazem a ideia de solidez e a sensação de segurança
está cada vez mais afetado. Tanta certeza tecnológica para tanta
incerteza sentimental.
Ansiedade Líquida
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