Ela decidiu e pagou para ver qual era.
No caminho até o ponto de ônibus percebeu os olhares nada discretos, diretamente para “eles”. Ao entrar no ônibus, a situação se tornou um pouco mais constrangedora porque, além de olhares maliciosos, ela se deparou com meios sorrisos, um amigo sinalizando ao outro com um movimento de cabeça em sua direção, além de várias mulheres que a olhavam com desprezo. Aquele trajeto teria se tornado uma agonia total, não fosse a criança sentada no colo de sua mãe que a encarou nos olhos e com um sorriso banguelo a lembrou que aquela pureza enxergava muito além do seu peito sem sutiã.
Todas as mulheres que já se atreveram a sair nas ruas sem usar sutiã podem entender perfeitamente o relato acima. Percebam que utilizei o “atrevimento” propositalmente, porque uma coisa que deveria ser tão simples se torna quase uma afronta em pleno século XXI.
No início desde ano provoquei um debate em minha rede social sobre o uso do sutiã.
A pergunta era: “Por que você usa sutiã?” As respostas foram as mais variadas, desde o conforto e segurança causado pela peça íntima até o verdadeiro pavor e sensação de desconforto por ter algo te apertando o tempo inteiro. A verdade é que palavras como “vulgar”, “assédio”, “olhares maliciosos” surgiram em vários momentos. Algumas mulheres não souberam o que responder pois nunca haviam parado para se questionar sobre o uso do chamado “amigo do peito”.
Segue post que me incentivou a falar sobre o assunto:
O sutiã não deve ser um acessório de ‘necessidade’ ou muito menos um objeto para sustentação. Você não precisa ter nada levantado, nada apertado, nada para segurar. Peito real cai, peito humano não é uma bolinha redonda perfeita, peito de mulher não vai estar sempre com o mamilo apontando para cima. Por que achar algo que nem existe na forma humana natural mais bonito do que a real forma humana?! Parem de maltratar seu corpos!
A responsável pelo post é a marca Burqa que se define como uma marca independente de lingerie slowfashion focada no bem estar feminino. PARA TODOS OS CORPOS!
Uma mulher que sai sem sutiã obviamente vai ter o bico do peito marcado na roupa. Isso faz com que a mulher, muitas vezes, seja considerada vulgar ou que queira chamar a atenção. É engraçado isso, porque os homens usam blusas que também marcam os mamilos e nem por isso são considerados safados. Acabei de me dar conta que a palavra “vulgar” nunca é utilizada para se referir ao sexo masculino, por isso optei pelo “safado”. Vulgarizaram o corpo da mulher.
A mulher se tornou objeto de desejo numa cultura baseada no machismo e, por conta disso, nós temos que nos proteger com o uso de um aparato, para tapar algo que é absolutamente natural e não parecer aquilo que nós não somos. Por causa do homem e não por causa de outra pessoa, nós nos submetemos a ter algo nos apertando o dia inteiro para cobrir os mamilos ou para sustentar os seios que se caídos, se tornam feios, afinal de contas, “eles” gostam de peitinho empinado.
Obviamente existem mulheres que adoram usar sutiã e se sentem mais confortáveis com eles. Algumas não conseguem se livrar da peça nem para dormir. Ótimo! Prezamos pela liberdade de escolhermos o que queremos ou não usar mas, neste caso, a escolha de não usar o (maldito) sutiã, gera uma série de constrangimentos sem fim.
Exemplo disso foi o que passou a jovem Lizzy Martinez de 17 anos que mora na Flórida. A manchete publicada no site brasileiro diz: “Garota vai à escola sem sutiã e é obrigada a colar curativos nos mamilos”. A adolescente foi chamada à reitoria da escola onde foi advertida por estar distraindo os garotos da sala, prejudicando assim o bom andamento da aula. Veja aqui a matéria completa.
“A grande questão é que uma das estratégias do machismo para oprimir as mulheres é hipersexualizar nossos corpos e dar a eles a noção de propriedade masculina. E, por isso, devemos não só violentar o nosso corpo com práticas estéticas dolorosas (para nos mantermos mais próximas de um “ideal de beleza”), como esconder ou expor apenas as partes do corpo que o homem acha adequado, nas circunstâncias em que lhes convém. Uma hora tem que ser puta, outra tem que ser santa. O sutiã é apenas mais uma estratégia de dominação e que cada uma de nós cria sua própria justificativa para usá-lo (que quase sempre se baseia em estética, medo de exposição ou de sofrer assédio) ”. Argumento de uma psicóloga que participou do debate que propus no Instagram.
Recebi um comentário de um rapaz, menino novo de 23 anos, logo após o debate, elogiando o tema e dizendo que jamais tinha parado para pensar no motivo das mulheres usarem sutiã. Agradeceu pelos questionamentos que a “brincadeira” nos stories levantou naquela tarde.
Talvez, você que é mulher, também nunca tenha parado para pensar a respeito do assunto. Usamos sutiã porque nossas mães usavam e todas as mulheres usam. Fazemos tantas coisas mesmo sem gostar e isso está mudando nesse momento em que vivemos. Estamos vivendo num período divisor de águas. Uma época em que o racismo, o machismo, a homofobia e tantas outras atitudes discriminatórias não são mais toleradas pacificamente, e isso é lindo!
O intuito não é incentivar todas as mulheres saírem às ruas de peito balançando a partir de agora. O objetivo é entender que temos o direito de escolher ou não usar aquilo que vai sobre o nosso corpo, sem a preocupação com nada além de se sentir bem.
E que de peito aberto, sejamos livres!
Escrito por Herica Godoy
Livre, Leve e Solto
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