Vizinhança esquecida

por Inayá Borges Selvatice

O que você pensa quando olha as pessoas que estão em situação de rua na sua calçada?


Fico na rua só às vezes. Preciso levar comida para a minha filha que mora com minha mãe, daí roubo supermercados e levo para ela e também compro drogas”, afirma Eduarda, 20 anos, em uma conversa breve no ponto de ônibus em frente ao Palácio Anchieta, às 7h, junto a uma colega que vende balas para sustentar a família.


A escolha pela rua possui vários motivos, às vezes por conta de brigas com familiares, desemprego ou vício em drogas. Nos últimos anos, conseguimos observar que o número de pessoas em situação de rua tem aumentado.

Mas você já parou para pensar sobre os motivos?

Maria Madalena, psicóloga, diz que é muito complicado quando uma pessoa se torna morador de rua. A depressão por conta da situação, a fome e o frio são as causas da possível iniciação ao vício: “Dificuldades familiares, financeiras ou incentivo de terceiros são as causas de muitas pessoas se viciarem. Depois que começa, é difícil parar. O crack, por exemplo, na segunda dosagem, o indivíduo já se torna dependente. Os locais de internação não dão conta, pois seis meses de internação não são suficientes e piora quando a pessoa não tem oportunidades de transformação completa, pós-tratamento”, afirma Madalena.

Na calçada dos Correios no Centro de Vitória são observadas muitas pessoas dormindo, diariamente. E quem nunca foi abordado com frases como “estou com fome, poderia me dar uma moedinha para eu tomar um café?”. Em um bate papo na lanchonete do Chinês, um morador em situação de rua disse: “Vim para Vitória para conseguir emprego e ajudar minha família de Linhares. Estou aqui há algum tempo e não consegui nada ainda. Penso em voltar, mas não tenho dinheiro para passagem”, disse Alex, que só toma uma cachacinha às vezes para esquentar do frio.


À noite, mais histórias surgem, como a do casal preparando sua cama para dormir, próximo ao Parque Moscoso. Maria Aparecida e Carmo, que vieram de Minas Gerais, perderam o emprego e vieram para o estado, pois ouviam falar que as coisas aqui eram mais fáceis. Eles lavam carros durante o dia, não usam drogas e sonham com uma oportunidade para sair das ruas: “Eu sempre trabalhei como catador e minha mulher também, às vezes ela fazia faxina. Como não temos estudo, não conseguimos ninguém que nos dê uma oportunidade”, afirma Carmo.

Segundo Marcos Marsom, assessor jurídico do Centro Pop de Vitória, a situação se agrava dia após dia por conta do desemprego. “Muitas pessoas querem sair das ruas e muitas aparecem por causa da falta de dinheiro. A abordagem é feita pela equipe, mas não tem espaço para todos. Os laboratórios de aprendizado funcionam muito bem, mas pessoas sem endereço são difíceis de serem contratadas. São invisíveis", disse Marsom.

É importante que essa situação não seja vista como algo normal e passe a fazer parte do cenário. Pessoas com fome, sede e frio não são parte do comum nas ruas. Questionamentos fazem parte, mas existem várias histórias de vida, além do vício em drogas. São homens, mulheres, crianças, idosos, famílias inteiras excluídas, sem identidade, indivíduos que, muitas vezes, tornam-se invisíveis, porém humanos.

Minha esposa faleceu e eu e minha filha não nos damos muito bem. Eu gosto de beber e ela não gosta. Aí eu prefiro ficar na rua. Aqui eu tenho tudo, ruim quando está frio” destaca seu Antônio de 65 anos.


Quase toda a população de rua não possui documentos, por causa de roubo de meliantes, pessoas em situação de rua ou bandidos que agem na madrugada, o que as exclui da vida civil. Além disso, são roubadas roupas que conseguem por doações e até comidas que deixam para o outro dia.

Muitas ações sociais acontecem em todo o estado, mas não estão dando conta. Como é o caso da Cristolândia, no Centro, um programa permanente de prevenção, recuperação e assistência a dependentes químicos e co-dependentes. O projeto sobrevive de doações e o estado se torna primordial para que o problema deixe de existir. Psicólogos e oportunidade de trabalho são o que essas pessoas precisam para retomar a uma vida digna.






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